domingo, 24 de maio de 2015

Fonte da Telha


Balouçando, ao sabor da brisa, acariciado pelos raios de sol desta tarde dominical, contemplo o espelho que se forma na areia molhada e que reflecte a arriba e o céu.

O som do mar, do vento e da música do Café del mar, que toca longínqua num bar da praia. aproxima-se aquela hora mágica em que o sol mergulha nas águas deixando um

Não há um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho.


Fiquem bem no lado escuro da Lua.

domingo, 17 de maio de 2015

Arrifana


Penhascos negros mergulham no mar azul
Traçando uma linha branca de espuma
Parece tombada das nuvens 
Que pintam de branco um céu azul

Sinto-me livre como uma gaivota
Deixando-se elevar sem esforço
Pairando sobre as ondas... flutuando
Deliciando-se nesta paisagem estival


As casas brancas serpenteiam pela encosta
Ao longo de uma estrada poeirenta 
Que termina abraçando-se ao mar
Numa praia que se estende para sul

Aqui não há pressa, o tempo parou
Para além do suave rumor das ondas
Uma cigarra toca uma melodia estival
A gaivota pousa no molhe cantando 


As pequenas embarcações abraçadas
Descansam da faina ao abrigo do pontão
O pequeno guindaste perfila-se com o farol
Pequenas bóias vermelhas salpicam a paisagem

Continuo à procura da bela Nereida 
Vejo a sua silhueta nas ondas
Sinto o seu sopro no vento
Absorvo o seu perfume na maresia...


sábado, 25 de abril de 2015

Foto montagem(?)



Vasculhando por fotos guardadas no disco encontrei esta que me prendeu não só pelas recordações do que foi o último Dakar na Europa (mais concretamente em Portugal), mas também pela presença da minha filhota, que partilhava então estes momentos comigo.

Outra coisa é a sensação de foto montagem. Na realidade a foto foi mesmo tirada assim não estava à espera que aparece-se a mota, ficou um efeito no mínimo estranho.

Fiquem bem no lado escuro da lua

terça-feira, 7 de abril de 2015

My Lover's Gone


As nuvens cobrem o céu 
com um abraço 
o Sol brilha entre elas
pincelando-as de rosa.

O vento acaricia as ondas
fazendo soltar uma espuma alva
que ora avança, ora recua,
terna pela areia.

Duas silhuetas brincam
entre latidos e saltos
felizes, molhados 
rebolam na areia.

Sinto-te ao meu lado
mas não estás aqui
estás longe, longe dos olhos
mas mesmo assim perto, perto de mim.

As pegadas na areia afastam-se
terás regressado ao mar?
caminho a teu lado
suspiro pelo teu rosto.



Não há um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho.


Fiquem bem no lado escuro da Lua.

Save a Prayer


Vejo e revejo este videoclip vezes sem conta. À beleza da musica, junta-se uma fotografia fantástica, com paisagens deslumbrantes e uma preocupação estética poética.

Conta uma viagem de busca espiritual, que se inicia numa praia do Ceilão, subindo um rio e chegando aos templos budistas do interior. Inicialmente Simon está só, descalço no quarto, dirige-se para a praia, cruza-se com várias pessoas, observa os pescadores, o pôr do sol, as crianças brincando, brinca com elas, é catapultado para o topo de uma montanha de onde desce para encontrar o AMOR - este é um momento de verdadeira inspiração:

And you wanted to dance so I asked you to dance
But fear is in your soul
Some people call it a one night stand but we can call it paradise

Poderia escrever-se um livro inteiro com base naqueles 20 segundos, naquelas 3 simples frases, aquelas 32 palavras, naquele casal que dança apaixonadamente e depois separa-se ela "com medo na alma" volta para a segurança da vida que já conhece, ele prossegue na sua demanda espiritual. A vida continua, está feliz pois sabe que aquela noite fugaz foi como estar no paraíso, foi a antecâmara do Nirvana que por fim encontra. 

Fiquem bem no lado escuro da lua.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Almost like the blues


Sinto-me no mar
suspenso na espuma
preso nas nuvens
pairando no ar

Sou uma gaivota 
voando sobre as ondas
rumo ao céu azul
vogando no vento

Sou a areia
sou o mar
sou as ondas
sou o vento

Entre dois mundos
o mar, a terra
as nuvens, as ondas
os peixes, as gaivotas

Olho para o mar 
vejo o teu rosto
na espuma das ondas
desenha-se o teu corpo

Estou perdido
sigo as estrelas
levado pelo vento
empurrado pelas ondas






Fiquem bem no lado escuro da Lua.

domingo, 5 de abril de 2015

Waterboys

Este é um grupo que me diz muito, a começar pelo nome. Não fosse eu também um rapaz da água.




Um rock alternativo, com o omnipresente violino e com a voz rouca de Mike Scott a dar um toque folk q.b.

Pelo menos venho "afogar" as mágoas, afastado das profundidades tenho andado sem inspiração, nem vontade para escrever. Um vasto conjunto de razões afastou-me do fundo do mar e tem sistematicamente impedido o meu regresso.

O último mergulho foi quase fatídico: resolvi ir sem lentes e tendo o meu computador ficado sem bateria (ou avariado ainda não sei) levei um computador que mal conhecia, sem conseguir ler correctamente os dados confundi o tempo até à descompressão com o manómetro da garrafa.

Estávamos a mais de 30 metros de profundidade e o ar subitamente acabou! Por sorte estava a mergulhar num dos melhores centros do país - a Subnauta - onde os cuidados com a segurança nunca são descurados e o divemaster para além de uma boa reserva de ar também estava atento e por perto.

Esta experiência em alguns dos centros em que já mergulhei (cujos nomes não irei mencionar mas eles sabem quem são) era um acidente de mergulho que tinha tudo para terminar na primeira página de alguns jornais. Com a Subnauta foi apenas um inconveniente e orgulho ferido.

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sagres

Há lugares no mundo que deixam uma marca profunda na nossa alma, Sagres sempre me fascinou, foram inúmeras as vezes que visitei o promontório e o cabo "onde termina o mundo" por terra, só ou acompanhado este sempre foi um local quase místico. Aliás para os povos da antiguidade era mesmo um lugar místico. Os Celtas chamaram-lhe o promontório dos Deuses. Outros povos achavam que era ali que o mundo terminava, era ali que começava o mar das trevas.

O Infante mudou tudo isso, mas a mística ficou agarrada àquelas pedras de forma indelével. Em todo o lado sente-se o peso da história, nas muralhas, nas velhas caraças dos canhões gastas pelos anos e pelo salitre, nas paredes do velho templo, na misteriosa rosa dos ventos, nas furnas que descem até ao mar pelo ventre da terra.

Mais a oeste vislumbra-se o cabo de S. Vicente com o seu farol, o ponto mais a sudoeste da Europa, a ponta do velho Continente que aponta para o Novo Mundo, entre ambos uma enseada com vários recantos e um charmoso Castelo hoje transformado numa unidade turística.

Mas nada do que se vê de terra é mais esmagador que a vista a partir do mar! A primeira vez que admirei esta paisagem a partir do reino de Neptuno, foi a bordo do paquete Funchal. Ainda hoje, passados 35 anos, revejo esse momento com uma claridade cristalina. Estávamos a jantar, pelas janelas comecei a ver desfilar a praia da Bordeira, depois o Castelejo, não esperei mais, saí para o convés e debrucei-me na amurada. Ouvia-se Wagner, os penhascos erguiam-se altivos, deslumbrantes à luz do pôr do sol, o navio aproximou-se tanto como as regras de segurança permitiam, deixando os mais pequenos pormenores ficarem expostos aos meus olhos.

Aos poucos fomos contornando o cabo de São Vicente e dirigindo-nos para Sagres, Wagner continuava a tocar pelas colunas do navio, olhei à minha volta, estava só contemplando a mais bela paisagem que jamais vira.

Dias antes tinha visto um rosto que também havia marcado a minha alma, tinha aparecido e depois perdera-se na multidão que polula nas noites estivais de Lagos. Receei não mais voltar a rever tão marcantes imagens. Fiquei por ali, a   noite caiu fiquei apreciando as luzes do Algarve: Burgau, Luz, Lagos, Alvor, Portimão.

Perguntei-me se voltaria a ver Sagres do mar... e aquele rosto lindo de morrer. Voltei para Lagos procurei-a, não mais a vi.

16 anos depois voltei a cruzar aquelas águas, desta vez no meu pequeno veleiro, voltei a procurar aquele rosto fugidio no meio da multidão. Sagres vista do mar voltou a mostrar-se em todo o seu esplendor num mar estanhado, lá em cima pareceu-me vê-la! Toquei a sirene, abanei freneticamente os braços... Não. não era ela, tenho agora a certeza.

Passaram outros 16 anos, olhando para um quadro de fotos em casa de alguém que conhecera à poucos dias volto a rever aquele rosto fugidio! Aquela cujo o rosto para sempre ficou gravado na minha alma como as imagens daqueles rochedos imponentes.

Redijo estas linhas a seu lado, contemplo o seu rosto sereno e belo. A noite vai adiantada, não tarda estarei abraçado a ela no nosso leito, sonhando com uma viagem a seu lado contemplado aquela paisagem divina uma vez mais.



Tal como as ondas do oceano que acabam rebentando sobre terra, também nós acabamos por encontrar quem amamos profundamente.


Fiquem bem no lado escuro da Lua.

Paisagens

Começa aqui uma nova etapa nos meus blogs. Paisagens é uma nova label que já tem alguns textos, mas será daqui para a frente o moto principal.

Os temas serão invariavelmente inspirados por uma paisagem, adornados por uma música ou sons ou mesmo cheiros. Claro que representaram uma visão muito pessoal, alguns contos serão ficcionais, outros serão retratos de um momento subjectivo.

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Mar dos sargaços

Não corre um fio de vento, o mar parece azeite, a imobilidade é total. O tédio instala-se suspiro por uma tempestade, neste momento pouco importa a vida, apenas queria algum vento.

Navegar é preciso, viver não é preciso.

Estou a ouvir o último disco de Leonard Cohen, a música Never Mind, parece fazer sentido neste momento. Estou sem inspiração, tenho vindo escrever enquanto ultrapasso o mar dos sargaço, esse pedaço de oceano onde não há ventos nem correntes.

Sou um homem de tempestades, de fortes ventanias, de ondas gigantes. Adoro sentir o vento a fustigar-me o rosto, a assobiar nos brandais ou entre os pinheiros. Gosto da sensação da adrenalina, daquela sensação de formigueiro, gosto do stress da acção.

Odeio o conforto de um dia igual ao outro, das rotinas. Prefiro a picada à autoestrada, não saber onde vou, se consigo atingir o meu destino em contraponto com a partida e chegada com hora marcada e paragens agendadas nas diversas estações de serviço.

Prefiro procurar um recanto de uma moita para mijar a esperar na fila do WC.

Sou um lobo, uma águia, não sou um carneiro ou uma ovelha. Prefiro enfrentar a incerteza de ter refeição a pastar no meio do rebanho.

Defendo ciosamente aquilo que diferencia dos outros e escondo o que me identifica, detesto ser mais um.

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Entropia e caos.

Estava calmamente passeando pelo pinhal, sentindo aquele aroma único da resina e da caruma misturadas com a maresia, ouvindo o vento de noroeste assobiando pelos ramos dos pinheiros, observando a ondulação destes e das giestas.
Sinto-me bem agora, depois de atravessado um longo deserto onde conheci oásis magníficos mas onde a sede, o cansaço e a fome quase me derrubaram.
A entropia desvendou-se aos meus olhos em toda a plenitude. Nunca se consegue voltar exatamente ao local de onde se saiu.

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Land Rover Discovery

Estou de volta às origens, que é como quem diz ao Discovery. O TD5 é como o homem da Regisconta "Aquela MÁ-QUI-NA!". Isto para quem se lembra do anúncio. De facto este foi defenitivamente o carro que me atestou as medidas e com cangulo! Um motor concebido exclusivamente para TT (acho que foi o único), uma suspensão pneumática atrás e com o sistema ACE que teima em manter a carroçaria sempre direita independentemente da carga e da força centrífuga, mas que quando passamos a trialeiras deixa um curso de 1 metro (sim é mesmo um metro) às suspensões. Depois há o HDC, o controlo de tração, a possibilidade de elevar a traseira para aumentar os ângulos central e de saída. A única falta é o bloqueio manual dos diferenciais. Situação que até se pode ultrapassar pois já vi que é possível bloquear o centro por software. Enfim na minha modesta opinião é o melhor carro de todos os tempos!!!

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Margem sul


Os primeiros raios de sol beijam as águas enrugadas pela brisa da alvorada manchas douradas contrastam com o azul-escuro das sombras das colinas.

As traves vermelhas da ponte vão atravessando a paisagem enquanto o comboio progride em direcção ao casario triste. 

Lá em baixo pequenos barcos baloiçam abrigados pelo pontão de um porto de abrigo que já viveu momentos mais áureos.

Olhando para a margem os sinais de degradação são evidentes. Armazéns caquécticos apresentam um ar abandonado, na maioria das casas as paredes exibem apenas vestígios de já terem tido tinta, a esta distância nenhuma janela apresenta sinais de cortinados. A pequena ruela deserta e escura bordeja o rio, por entre o casario não se vê vivalma mas sente-se que sobre aquelas pedras numa época anterior já houve um movimento frenético de pescadores, marinheiros, familiares e amigos. Parece que as emoções das despedidas para as campanhas do bacalhau ficaram por ali agarradas aos muros e ao pó que se tem acumulado. 

Em contraste o elevador panorâmico de linhas redondas e design moderno anda num sobe e desce ditado pelo ritmo dos turistas. Um cilindro branco eleva-se desde a margem até ao topo da colina ligado por uma ponte, também ela branca. No meio daquele quadro de linhas austeras e quadradas parece um artefacto alienígena.

No entanto há poesia naquele espaço, uma beleza decadente emana aos olhos de quem observa aquela paisagem despertando sentimentos nostálgicos. À medida que nos afastamos as imagens começam a tornar-se difusas na ténue neblina da fria manhã de Outono. Os detalhes vão se ofuscando, mas a mística vai aumentando, assumindo um protagonismo maior. Quase que se ouvem os gritos de despedida das jovens para os seus homens prestes a partir para a Terra Nova. Quase que se sente o cheiro do bacalhau misturado com o das lágrimas de alegria e saudade de quem viu um seu familiar chegar são e salvo. 

As pinceladas verdes das ervas que crescem entropicamente pelas encostas, o amarelo escuro das areias sujas pelas águas turvas do Tejo lutam contra os tons monocromáticos da paisagem.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012


Adeus tio Zé Miguel.

Já havia muito tempo que não nos viamos (demasiado tempo) mas a vida é como um bolo de passas, à medida que vai crescendo as passas vão se afastando umas das outras.

Lembro-me bem quando fostes trabalhar para a loja do meu pai. Devias ter por volta de 20 anos e eu era um miúdo de 8. Brincavamos sempre que não havia clientes. Lembro-me também com muita nostálgia de irmos montar armadilhas para os pássaros na quinta do Sargaçal, era a manhã e a tarde a andar para dar a volta ao pinhal. No meu imaginário ficará sempre o cheiro da caruma do pinheiro aquecida pelo sol de Verão. Ainda hoje quando sinto esse cheiro a recordação que tenho é de seguir atrás de ti mais o primo Manelinho pelo meio do pinhal.

O Manel... já lá vão uma dezena de anos que ele morreu. Será que voces andam a caçar pardalitos juntos agora?

Era tão feliz nessa altura. Não tinha preocupações, stress, a vida era uma alegria completa. Tenho tantas saudades desses tempos e ontem quando soube que já não estavas cá foi como uma luz (mais uma luz) que se apagou dessas memórias ficando agora mais sombrias e tristes.

Sei que não devemos viver no e do passado, mas o que somos hoje é em grande medida fruto desse passado, assim todos os acontecimentos que interajem com ele afectam-nos o presente inexorávelmente.

Adeus tio, até um dia...
Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

terça-feira, 10 de julho de 2012

BLACK





Foto: <3


Adeus Black!

Conheci-te à porta da praça da Charneca, estavas com os teus irmãos para adopção, vieste ter comigo, lambeste-me a mão e olhaste-me com esses mesmos olhos. Não resisti e tive de te levar comigo.

Detestavas cães pretos, ladravas a ti próprio quando te vias ao espelho, eras um fingido, uma vez fingias estar coxo para logo a seguir saires a correr atrás de um gato. Quando fazias asneiras, ao passares junto a mim ganias mesmo sem te tocar. Detestavas molhar-te, mas sempre que vias gaivotas pousadas na água lá ias atrás delas.

Conquistaste todos os corações os que te conheceram, eras um malandro, daqueles que toda a gente gosta.

Durante 11 anos fostes um amigo, um companheiro, passamos juntos por muitas alegrias e tristezas, tiras-te-me do sério e arrancas-te-me gargalhadas.

Ontem foste-te embora, estou triste, mas sei que foi melhor assim, deves estar com o teu amigo Tom, com quem partilhavas a casota, provavelmente estarão por aí os Ringos, o Perry, o outro Black, a Cockie, o Joli e a Lassie. Todos eles foram meus amigos em diferentes periodos da minha vida, uns estiveram mais tempo comigo, outros menos e todos deixaram uma marca, uma recordação.

Adeus meu cãozinho, até sempre...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Tempestade 2


As nuvens deslocam-se para lá do horizonte perseguidas pelo azul do céu. A poente, começam a surgir as primeiras pinceladas de laranja, as gaivotas pairam aproveitando as correntes sem aparente dificuldade seguindo o pequeno barco, oiço o som das vagas a serem cortadas pela proa.
A brisa vai trazendo o cheiro da maresia, acariciando o meu rosto e inundando-me os pulmões. Agora sinto-me em paz. O turbilhão da tempestade já passou, doem-me os músculos. Com renitência vou trocar a vela de estai1) pela genoa2) e tirar os rizes3) da vela grande4). O barco ganha velocidade, retomo o leme, mareio as velas5), traço uma rota mais favorável. A velocidade vai aumentando, o casco começa a planar6) e atinjo os 9 nós7), 10, 12. Tudo está em ordem, o pequeno veleiro resistiu incólume à tempestade.
Sinto-me em paz, feliz, um largo sorriso ilumina-me o rosto.
-Anda, podes subir, o temporal passou, podemos de novo estar aqui abraçados.
Ela subiu e dirige-se até mim com aquele movimento sensual e felino que me lembra a música dos U2 "She moves in mysterious ways". Abraçamo-nos e beijamo-nos apaixonadamente.
Estivemos afastados durante aquela tempestade que saiu do nada, de repente. Tinha-a pressentido, havia indícios dela aqui e ali, mas eterno otimista, segui o meu caminho. Era simplesmente impossível estar os 2 juntos no convés8) no meio daquelas vagas. Agora podíamos apreciar tranquilamente o pôr-do-sol ali, abraçados.
Lá ao longe começa a brilhar o farol, aos poucos vão se tornando visíveis as luzes das povoações, como uma poeira luminosa. Lentamente a poeira vai-se transformando em pontos bem definidos até ficarem individualizados.
Os pequenos faróis verde e vermelho que balizam a entrada do porto já são visíveis.
Aponto a meio dos dois, vermelho a bombordo9), verde a estibordo10) e preparo-me para recolher as velas.
Ligo o motor, o velho Volvo Penta tosse uma baforada de fumo e começa a cantar. Salto para a proa11) e peço-lhe para soltar a escota12) da genoa, solto a sua adriça13), rapidamente a grande vela começa a descer, oriento a queda para que não caia na água, depois é só prendê-la com os elásticos e regressar ao poço14) e repetir a manobra para a vela grande. Enquanto amarro a vela ela engata a marcha à vante15). Dirigimo-nos para o pontão onde encosto e amarro o barco. Abraço-a longamente olhando-a nos olhos, beijamo-nos embalados pelas pequenas vagas do porto.
-Vamos para casa, acendemos a lareira, jantamos e bebemos um bom vinho, depois… a noite é longa e temos muito para dar um ao outro – murmurei-lhe ao ouvido.
Entramos no carro, no rádio toca “Goodbye Moon” dos Shivaree…

1) Vela de estai – pequena vela de proa, usada quando o vento é mais forte.
2) Genoa – vela de estai de maiores dimensões.
3) Rizes – pequenos cabos usados para reduzir a dimensão da vela grande.
4) Vela grande – vela situada atrás do mastro de forma triangular e mantida entre o mastro e a retranca.
5) Marear – caçar ou folgar uma vela ajustando-a à direção do vento.
6) Planar – quando o barco deslizar na crista da onda.
7) Nós – unidade de medida de velocidade. Corresponde a uma Milha Náutica (1852 metros) por hora (MN/H) ou seja 1,852 Km/h.
8) Convés – é a parte da cobertura superior de uma embarcação.
9) Bombordo – lado esquerdo da embarcação, quando virados para a proa.
10) Estibordo – lado direito da embarcação, quando virados para a proa.
11) Proa – a parte da frente de uma embarcação.
12) Escota – cabo fixo à retranca ou ao punho da escota através da qual se controla a abertura da vela em relação ao vento.
13) Adriça – cabo para sutentar a vela e também usado para a içar.
14) Poço – local onde se encontra a tripulação e de onde se comanda a embarcação.
15) Vante – proa.


Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Tempestade 1

Navego no meio da tempestade, as vagas roçam o céu de chumbo, o vento uiva nos brandais, temo que o tormentin (pequena vela usada quando o vento é muito forte) se desfaça sob a sua fúria. O barco geme e range a cada rajada de vento, não consigo ganhar velocidade, não consigo sair dali, cada vez que tento voltar a popa à fúria do mar uma onda desfaz-se na proa abortando essa demanda.

Não tenho medo, se há um sítio onde não tenho medo de morrer é no mar, consigo manter a proa virada às ondas, o barco sobe-as, quais montanhas de água em movimento. Parece que fica na vertical, lá em cima projecta-se no vazio caindo com estrondo no regaço da onda seguinte, por vezes mergulha profundamente naquele mar tempestuoso, agarro-me com ambas as mão à roda de leme, luto desenfreadamente para me manter a bordo.

Os dias passam, semanas, meses, aquela tempestade não termina... Espera, lá ao fundo, parece um raio de sol... É um raio de sol. Sinto-me só naquele navio, estou cansado, doem-me as mãos, os braços, os ombros. De repente vejo um intervalo maior entre 2 cristas, agarro a escota com uma mão, deixo a escota escorregar no molinete. Arribo ligeiramente de modo a ganhar alguma velocidade, atinjo o cume da primeira montanha de água, desta vez vou muito mais perpendicular, já não caio, desço a onda a grande velocidade, lá em baixo orço descaradamente, puxo a escota, rapidamente o vento muda de bordo, ganho velocidade, subo a onda seguinte.

Tenho o raio de sol à proa, uma gaivota pousa junto a mim, peço-lhe para ficar de olho na roda de leme, corro até ao pé do mastro e puxo as adriças da vela grande que sobe célere. O rumo mantém-se estável, desloco-me à proa troco o tourmentin pelo estai. Volto até à roda de leme, o barco já segue célere pelas ondas o céu vai trocando lentamente os tons de chumbo por tons laranja. Ainda estou só, apenas a gaivota me acompanha, falo com ela, desabafo sobre a tormenta que atravesso ainda, mas que aos poucos vai desfazendo. A gaivota levanta voo e aponta-me o caminho, fixo a roda de leme as ondas estão ainda pesadas, ainda me encontro só. Desloco-me de novo à proa, chegou a altura de fazer subir a genoa. O casco começa a planar, volto-me para traz e vejo-A ao leme. Já não estou só, ELA conduz-me a um lugar mágico, sinto-me enebriado pelo cheiro, envolvo-A com um braço, beijo-A, AMO-A.

Estou feliz, muito feliz, não sei para onde me dirijo, apenas tenho uma certeza: com ELA vou até ao fim do mundo, até ao fim da vida.

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A minha Musa


Para que não restem quaisquer dúvidas a musa que me inspira foi a minha primeira namorada, chamava-se Teresa, era 2 anos mais velha que eu, era loira, tinha uns lindos olhos azuis, uma pele clara e macia. Frequentávamos o 8º ano na Escola de Lagos e namoramos esse ano e o Verão seguinte, depois de outro chumbo o pai mandou-a estudar para Lisboa, perdi-lhe o contacto, nem sequer sei se ainda é viva. Era demasiado bonita, demasiado ardente e demasiado jovem...


Ficou no meu coração, como qualquer primeiro amor, mas muito sinceramente não gostava de voltar a encontrá-la. Quero recordá-la como era nessa altura, linda de morrer, fogosa, terna, dominadora, um pouco Maria rapaz de feitio mas com uma sensualidade contrastante.

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

sábado, 23 de abril de 2011

Vamos a ver se é desta

Já passou 1 mês desde que iniciei este post. Não tenho tido disponibilidade, nem mental nem de tempo. Agora estou a meio de umas férias e com os serviços encerrados já posso dispor de algum tempo para o lazer. É que sempre que estou no computador tenho trabalho para fazer, tenho alguém que está "encravado" ou os postos de trabalho estão todos ocupados ou há um problema num programa ou há uma alteração urgente... Quando não há nada disto sou eu que acho que determinado procedimento faria mais sentido de outra forma...


Resumindo a minha vida de uma forma mais poética - Estou como o mar, em constante mudança, às vezes calmo, às vezes em completa agitação; às vezes em solidão, às vezes no meio de uma multidão, desde o Verão passado que as mudanças têm sido a única constante na minha vida, no amor, nas amizades, na família, no trabalho e até na aparência.

Nunca passaram tantos meses sem mergulhar. Nunca estive tanto tempo sem me deixar abraçar pelo mar. Talvez aqui resida uma boa parte das responsabilidades por tão longo afastamento. Uma miríade de razões provocou este afastamento, desde logo o aumento logarítmico das responsabilidades no trabalho e consequente aumento das preocupações, estudos e pesquisas; por outro lado decidi aprofundar-me em termos religiosos/filosóficos e tenho-me dedicado profundamente à meditação.


Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A deliciosa leveza do ser

A velocidade a que o tempo passa é surpreendente, desde o meu último post já passou mais de 1 mês!

Se olhar para olhar para trás vejo que muito aconteceu, "gozei" férias, acabei de pintar a casa, encetei uma reestruturação da minha vida, etc.

De facto sinto-me hoje como se estivesse quase no topo do mundo, acho que em toda a minha vida nunca me senti tão bem. Isto até me faz lembrar a intervenção cirúrgica à coluna, sofri durante anos, tanto que me habituei à dor, quando a lesão se começou a revelar incapacitante não tive outro remédio senão ir à faca. Depois quando finalmente recuperei é que me apercebi do que era viver sem dores.

A nível emocional foi mais o menos o mesmo, sofri durante décadas e aos poucos habituei-me a sentir-me miserável, depois quando as causas do sofrimento foram afastadas é que senti a liberdade de viver.

Tudo mudou à minha volta e dentro e mim. Agora sinto-me leve, muito leve. Sobretudo feliz.

Fiquem Bem no Lado Escuro da Lua!