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sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Europe Endless

Os tambores da guerra soam cada vez mais alto. Mas estamos surdos, acomodados a uma ideia com 80 anos de que a guerra nunca mais atingiria a Europa. 
No entanto ela está aí,  a Rússia invade a Ucrânia,  os actos de sabotagem contra a Europa vão se multiplicando. 

Se olharmos para trás vemos as semelhanças com 1938, sistematizando: 

1938 Hitler invade os sudetas com o argumento que a população alemã é perseguida e discriminada.

2014 Putin invade a Crimeia com o argumento que a população russa é perseguida e discriminada. 

1939 Hitler toma o resto da Checoslováquia porque... coiso.

2022 Putin ataca a Ucrânia porque... coiso.

1938 Hitler anexa a Áustria sem disparar um tiro. 

2000 Putin reforça o controlo da Bielorrússia com um palhaço como presidente. 

O resto do que se passou no séc. XX já sabemos, falta saber o que se vai passar daqui para a frente. 

Ok, a Ucrânia não caiu, pois foi um erro de cálculo, nem Putin nem ninguém esperava que Zelinsky, um comediante eleito presidente, tivesse tanta fibra e tanto carisma. Também não era espectável que o povo ucraniano resistisse de forma tão aguerrida. 

Putin também não contava que o seu amigo Trump perdesse as eleições, o que adiou em 4 anos os seus planos. 

Putin, tal como Hitler tinha feito 80 anos antes, afirma que as suas pretenções territoriais eram apenas a Crimeia, Donbass e Donetsk, e hoje já juntou Kerson e ... Tenho a certeza que irá acrescentando territórios enquanto lhe deixarem até atingir o desígnio da mãe Rússia - estender-se de Vladivostok até Lisboa! Não! Não estou a inventar ainda não há muitos meses o seu n2, fazia essa afirmação literalmente. 

Os astros voltam a alinhar-se para putin, Trump ganha as eleições nos EUA, a extrema direita assoma-se na Alemanha e em França, já se instalou na Hungria e na Eslováquia pode bem juntar Romênia ao grupo. Aqui no burgo já são a terceira força política.

Por falar nos Cheganos, aquela cáfila mente descaradamente, se um dia chegarem ao poder rapidamente passariam a ser os amigos do Putin. 

Deixo aqui a música dos Kraftwerk - Europe Endless, que termina assim 


Elegance and decadence, Europe Endless

Fiquem bem no lado escuro da Lua.

domingo, 17 de novembro de 2024

A Kind of Magic

Musica dos La Caina e Imagens e texto do penúltimo meu próximo livro - Ao Longe o Mar!

Dedicado a ti minha querida Angie!




A noite vai-se aproximando

O sol vai descendo lentamente

O vento vai juntando as nuvens

Como um rebanho de ovelhas fossem

 

As cores do céu vão mudando

As cores do mar também

O vento encrespa o Mar

Fazendo dele milhares de espelhos

O Sol pinta a paisagem

Vai mudando os tons

Vai mudando a luz

Vai trazendo a paz

Vai acariciando a alma dos homens

Vai transmitindo a magia do dia

Vai chamando o crepúsculo

Vai antecipando a terna noite


As ondas vêm brincar para a praia

Vêm dançando enrolar-se na areia

Dançam com o vento, com as nuvens

Fazem os Homens sentir-se poetas


Trazem com elas a maresia

Que nos inunda o olfacto

Levada pelo vento

Espalha-se pela terra

 


 Sinto-me a bailar

A bailar com o vento

A dançar com as ondas

Rodopiando na areia


 Sinto-me um poeta

Sinto-me um mágico

Sinto-me um pintor

Sinto-me um músico

 

Ali fico a respirar

Aquele ar salgado do mar

Perco a noção do tempo

Perco o lugar do espaço

 

Sacudo a areia dos pés

Seco a água do cabelo

Esfrego o sal da pele

E em paz retorno ao lar

Fiquem bem no lado escuro da Lua.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

Onde o Mar é mais Azul


Depois de um dia em que não se sentia a diferença entre abrir a porta do terraço e a porta do forno, hoje, aqui onde o mar é mais azul, a típica doce e refrescante brisa marítima temperou o clima o que me permite estar a escrever estas linhas no exterior.

Confesso que ainda sinto uma certa nostalgia de Lagos, mas este cantinho é de facto abençoado. Com uma quantidade assinalável de praias, desde as mais cosmopolitas às mais escondidas, a temperatura da água é compensada pelo calor humano. Inúmeras ribeiras desaguam em praias cavando vales férteis até à areia e proporcionando abrigo aos ventos que são uma imagem de marca do Oeste.

Depois há esse pormaior que, para quem me lê há algum tempo já sabe, tem uma importância central na minha vida - O AZUL. De facto aqui é mesmo onde o mar é mais azul! Desde que me conheço como gente, o azul foi sempre a minha cor favorita e sempre dominou os meus gostos. Cresci com uma vista privilegiada sobre o azul com o mar à porta e o céu limpo sobre a cabeça. Passava dias inteiros na praia, mergulhando, nadando, surfando, quer dizer tentando surfar, pois naquela altura era muito difícil encontrar pranchas de surf em Portugal, tentei fazer com vários materiais que conseguia arranjar, mas todas se partiam na minha primeira tentativa de as usar 😖. Acabei a fazer bodysurf, ou como se dizia na época a "correr marulho". Ou a surfar com os pequenos veleiros da escola de vela, acabando muitas vezes por ver-me obrigado a algumas reparações nas embarcações.

Por falar nisso, tinha 12 anos quando pela primeira vez me sentei um barco à vela - um Optimist. Ainda hoje me lembro da sensação de caçar a vela e sentir a "caixa de sabão" a deslizar pela ribeira até ao mar, de esgueirar-me pela praia da Batata, passar pela praia dos Estudantes e contemplar o pôr-do-sol na Ponta da Piedade. Acho que me ficou melhor gravado esse momento do que o do primeiro beijo. 😆


Fiquem bem no lado escuro da Lua.



quinta-feira, 15 de abril de 2021

The Fog


Like ghosts coming out from the fog, the giants and majestic buildings irromps in the skyline gathering the attention from everybody who are contemplating.

The silence imposes himself over the normal sounds of the city, in a moment everything disappears, only these giants remains there, still, quiet.

But, suddenly, they start moving, they start dancing. A music start to play, firstly low, almost imperceptibly, but slowly get louder and louder.

Now we can distinguish the piano echoing by the square, the sad and at the same time joyful chords of the music combine in harmony with the old and new mixture of architecture.

In a breach of the fog a figure appears playing the keyboard while floating in the gentle breeze, his passion is moving his fingers over the keys.

The music follows the wind, now slowly... now speedy, one time high... other time low, majestic and romantic, she mix with the fog and echoes endlessly.

The love, the same love who make this man to state that his heart should stay forever in the city he loved, the LOVE is everywhere dissolved in the fog. 
 

Stay well on the Dark Side Of The Moon.



This was my first poem written in english, and his dedicated to my beautiful and dear wife

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Snow


And the snow continues...

Let it snow

Let it snow

Let it snow 

 

 

Stay well in the Dark Side of the Moon.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

És o Amor da minha vida



 És o Amor minha vida
Quando vens caminhando
O meu coração pára de bater
Fico assim nem respirando

És o Amor da minha vida
A tua voz me entontece
É uma melodia que encanta
Uma música que me entorpece

És o Amor da minha vida
Nunca nos iremos separar
O nosso Amor é invencível
Completamente impossível de parar

És o Amor da minha vida
Só ao teu lado estou bem
A tua presença é um colírio
Estar longe de ti só merece desdém



Fiquem bem no lado escuro da Lua.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

De regresso...


Não sou de fazer planos, toda a minha vida tenho andado ao sabor dos ventos e das correntes. Claro que tomo opções: umas vezes vou à bolina, noutros faço um bordo, noutras ainda vou à pôpa, que viro a bombordo, a estibordo, que ora viro em roda, ora cambo.

Mas no fim o destino não interessa, o importante é a viagem. Que é como quem diz: Não há um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho.

Voltar ao pé do Mar, acordar ao lado da Mulher que amo e contemplar as ondas a rebentarem na areia, fizeram despertar de novo em mim a vontade de vir aqui.

Já havia mais de um ano que não estava assim perto Dele, sem pressas, sem afazeres, sem um calendário a cumprir. Sinto-me rejuvenecido, renascido, sinto-me como um veleiro vogando vorazmente pelas cristas das ondas.

Estou de novo a escrever, o Paisagens ficou parado, incompleto, enquanto atravessava a Europa, de Oeste para Leste, de Sul para Norte. Talvez agora o possa continuar, talvez agora o possa terminar, por certo mais enriquecido, afinal a viagem que começou em Portimão em direcção ao Norte, que sulcou o Mediterrâneo até Itália, que visitou o deserto e cruzou o Atlântico na rota de Cristóvão Colombo, vai continuar a expandir-se: Lille, Bucareste, Copenhaga, Munique, Viena, Constança e o Mar Negro.

Fica aqui então a música do dia:



Fiquem bem no lado escuro da Lua.

domingo, 14 de maio de 2017

Alergia

Ontem foi uma noite de alegria, hoje está a ser de alergia.

Isso tira-me a inspiração para escrever.

As vendas do "Wet Side of the Moon" estão a decorrer bem.

Já tenho mais de metade do "Paisagens" escrito.

O segundo livro "Isto sempre foi assim" está praticamente pronto para publicar, tenho apenas de o rever e corrigir uma ou outra coisa.

Ainda estou a dissolver os restos da festa de ontem - uma boa cerveja, um excelente whisky e um charuto Dominicano muito bom, isto para não falar da Raia de Alhada que estava divinal.

Mas estive aqui vários minutos a olhar para o ecrã e só me passa isto na cabeça.

Até amanhã.

Fiquem bem no lado escuro da lua.

terça-feira, 3 de maio de 2016

China

De novo sentado no canto da aparelhagem com os auscultadores, de novo aquele programa fantástico... Começo por ouvir um trovejar, depois relâmpagos saltam de um ouvido para o outro, começam a soar uns acordes pesados com forte influência oriental e por fim om gongo. Bruscamente a música abranda e acalma... depois surge uma melodia, uma das mais belas que jamais tinha ouvido, o tom apoteótico vai crescendo até ao fim da música.

Começa assim Chung Kuo, a primeira música do album China de Vangelis, outra das apresentações daquele maravilhoso programa que falei no post anterior. Sem interrupção segue-se The Long March um solo de piano espectacular, The Dragon traz-nos uma sonoridade mais oriental, quase dá para imaginarmos a dança do dragão nas ruas de Xangai ou Pequim, os ritmos das músicas vão se encadeando ora mais rápidos ora mais lentos, ora mais Yang ora mais Yin, The Plum Blossom combina na perfeição um violino com cores sonoras vindas da China. The Tao of Love introduz-nos uma Pipa (guitarra típica chinesa), sempre na companhia dos sintetizadores, The little Fete inicia com uma flauta, e conta-nos uma história chinesa numa voz com forte pronúncia.

Yin and Yang aqui a sonoridade é definitiva e inequivocamente oriental, só após alguns minutos os sintetizadores repartem o protagonismo. Ao ouvir a envolvência sonora de Himalaya transmite-nos a sensação de neve, grandiosidade e enigma, juro que consigo-me imaginar lá nos Himalaias sempre que ouço esta música. Summit conduz-nos ao pico, dali conseguimos contemplar o mundo, ali o tempo pára, lá em baixo as nuvens deslizam placidamente.

Foi o meu primeiro contacto com a cultura oriental, embora pela mão de um grego, um contacto que acabou por ser decisivo no resto da minha vida influenciando a minha maneira de ser e ver o mundo, a minha religião, a minha filosofia. Ao longo dos anos fui-me embrenhando cada vez mais a Oriente estudei medicina tradicional chinesa, pratiquei Yoga e Tai Chi, segui a filosofia do Tao Te Ching e do I Ching, para além de seguir os ensinamentos Budistas.

Acho que tal como no disco China, também acabei por mesclar o Ocidente e o Oriente, absorvendo e misturando ideias e conceitos. Daí essa obra ter tido uma importância capital no desenvolvimento da pessoa que sou hoje.

Há momentos que mudam por completo a vida de uma pessoa, não imediatamente, mas tal como uma semente que cai na terra e fica ali dormente, desenvolvendo-se lentamente até desabrochar vindo a tornar-se numa árvore majestosa.

E ainda não me consegui lembrar do nome do program de rádio...

Fiquem bem no lado escuro da lua.





quarta-feira, 6 de abril de 2016

5 anos depois entre Portimão e Lagos


Já tinham decorrido 5 anos desde a minha última estadia no Algarve, eram 6 da manhã, os primeiros raios de sol chamaram-me, sob um céu polvilhado de nuvens, o mar estava estanhado numa calmaria acompanhada pelo silencio quase absoluto de uma manhã perfeita, apenas cortado pelo esporádico canto dos pássaros.

O sol elevando-se do mar vai furando as nuvens e fazendo os seus suaves raios aquecer-me a pele despida, arrepiada pela fresca brisa matinal. Não passa ninguém na rua, nem vivalma, a hora tinha acabado de avançar para o horário de Verão e poucos se tinham adaptado.

Uma melodia veio-me à cabeça:


Não há um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho.




Fiquem bem no lado escuro da Lua.

domingo, 15 de novembro de 2015

O Ódio


Não vou escrever muito, apenas vou pedir emprestadas a voz e as palavras desse grande vulto da música - Leonard Cohen e o lápis de Osama Hajjaj.


Fiquem bem no lado escuro da lua.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O meu mar


És como o mar!
Às vezes calma e terna
Às vezes tempestuosa e agreste
Mas sempre, SEMPRE LINDA

És como o mar!
Embalas-me placidamente,
Bailas, rodopias, inebrias-me,
Enroscas-te e anichas-te em mim

És como o mar!
De uma beleza única, inimitável,
O teu odor preenche-me os sentidos,
O teu sabor adoça-me a vida

És como o mar!
Indomável, forte, poderosa,
Delicada, dedicada, amiga,
Poderosa e frágil

És como o mar!
Sem ti não podia viver,
Sem ti não podia amar,
Sem ti estaria perdido

És como o mar!
Amo-te!
Adoro-te!
Quero-te para sempre!



Fiquem bem no lado escuro da lua.

sábado, 25 de abril de 2015

Foto montagem(?)



Vasculhando por fotos guardadas no disco encontrei esta que me prendeu não só pelas recordações do que foi o último Dakar na Europa (mais concretamente em Portugal), mas também pela presença da minha filhota, que partilhava então estes momentos comigo.

Outra coisa é a sensação de foto montagem. Na realidade a foto foi mesmo tirada assim não estava à espera que aparece-se a mota, ficou um efeito no mínimo estranho.

Fiquem bem no lado escuro da lua

domingo, 5 de abril de 2015

Waterboys

Este é um grupo que me diz muito, a começar pelo nome. Não fosse eu também um rapaz da água.




Um rock alternativo, com o omnipresente violino e com a voz rouca de Mike Scott a dar um toque folk q.b.

Pelo menos venho "afogar" as mágoas, afastado das profundidades tenho andado sem inspiração, nem vontade para escrever. Um vasto conjunto de razões afastou-me do fundo do mar e tem sistematicamente impedido o meu regresso.

O último mergulho foi quase fatídico: resolvi ir sem lentes e tendo o meu computador ficado sem bateria (ou avariado ainda não sei) levei um computador que mal conhecia, sem conseguir ler correctamente os dados confundi o tempo até à descompressão com o manómetro da garrafa.

Estávamos a mais de 30 metros de profundidade e o ar subitamente acabou! Por sorte estava a mergulhar num dos melhores centros do país - a Subnauta - onde os cuidados com a segurança nunca são descurados e o divemaster para além de uma boa reserva de ar também estava atento e por perto.

Esta experiência em alguns dos centros em que já mergulhei (cujos nomes não irei mencionar mas eles sabem quem são) era um acidente de mergulho que tinha tudo para terminar na primeira página de alguns jornais. Com a Subnauta foi apenas um inconveniente e orgulho ferido.

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Entropia e caos.

Estava calmamente passeando pelo pinhal, sentindo aquele aroma único da resina e da caruma misturadas com a maresia, ouvindo o vento de noroeste assobiando pelos ramos dos pinheiros, observando a ondulação destes e das giestas.
Sinto-me bem agora, depois de atravessado um longo deserto onde conheci oásis magníficos mas onde a sede, o cansaço e a fome quase me derrubaram.
A entropia desvendou-se aos meus olhos em toda a plenitude. Nunca se consegue voltar exatamente ao local de onde se saiu.

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Land Rover Discovery

Estou de volta às origens, que é como quem diz ao Discovery. O TD5 é como o homem da Regisconta "Aquela MÁ-QUI-NA!". Isto para quem se lembra do anúncio. De facto este foi defenitivamente o carro que me atestou as medidas e com cangulo! Um motor concebido exclusivamente para TT (acho que foi o único), uma suspensão pneumática atrás e com o sistema ACE que teima em manter a carroçaria sempre direita independentemente da carga e da força centrífuga, mas que quando passamos a trialeiras deixa um curso de 1 metro (sim é mesmo um metro) às suspensões. Depois há o HDC, o controlo de tração, a possibilidade de elevar a traseira para aumentar os ângulos central e de saída. A única falta é o bloqueio manual dos diferenciais. Situação que até se pode ultrapassar pois já vi que é possível bloquear o centro por software. Enfim na minha modesta opinião é o melhor carro de todos os tempos!!!

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Margem sul


Os primeiros raios de sol beijam as águas enrugadas pela brisa da alvorada manchas douradas contrastam com o azul-escuro das sombras das colinas.

As traves vermelhas da ponte vão atravessando a paisagem enquanto o comboio progride em direcção ao casario triste. 

Lá em baixo pequenos barcos baloiçam abrigados pelo pontão de um porto de abrigo que já viveu momentos mais áureos.

Olhando para a margem os sinais de degradação são evidentes. Armazéns caquécticos apresentam um ar abandonado, na maioria das casas as paredes exibem apenas vestígios de já terem tido tinta, a esta distância nenhuma janela apresenta sinais de cortinados. A pequena ruela deserta e escura bordeja o rio, por entre o casario não se vê vivalma mas sente-se que sobre aquelas pedras numa época anterior já houve um movimento frenético de pescadores, marinheiros, familiares e amigos. Parece que as emoções das despedidas para as campanhas do bacalhau ficaram por ali agarradas aos muros e ao pó que se tem acumulado. 

Em contraste o elevador panorâmico de linhas redondas e design moderno anda num sobe e desce ditado pelo ritmo dos turistas. Um cilindro branco eleva-se desde a margem até ao topo da colina ligado por uma ponte, também ela branca. No meio daquele quadro de linhas austeras e quadradas parece um artefacto alienígena.

No entanto há poesia naquele espaço, uma beleza decadente emana aos olhos de quem observa aquela paisagem despertando sentimentos nostálgicos. À medida que nos afastamos as imagens começam a tornar-se difusas na ténue neblina da fria manhã de Outono. Os detalhes vão se ofuscando, mas a mística vai aumentando, assumindo um protagonismo maior. Quase que se ouvem os gritos de despedida das jovens para os seus homens prestes a partir para a Terra Nova. Quase que se sente o cheiro do bacalhau misturado com o das lágrimas de alegria e saudade de quem viu um seu familiar chegar são e salvo. 

As pinceladas verdes das ervas que crescem entropicamente pelas encostas, o amarelo escuro das areias sujas pelas águas turvas do Tejo lutam contra os tons monocromáticos da paisagem.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012


Adeus tio Zé Miguel.

Já havia muito tempo que não nos viamos (demasiado tempo) mas a vida é como um bolo de passas, à medida que vai crescendo as passas vão se afastando umas das outras.

Lembro-me bem quando fostes trabalhar para a loja do meu pai. Devias ter por volta de 20 anos e eu era um miúdo de 8. Brincavamos sempre que não havia clientes. Lembro-me também com muita nostálgia de irmos montar armadilhas para os pássaros na quinta do Sargaçal, era a manhã e a tarde a andar para dar a volta ao pinhal. No meu imaginário ficará sempre o cheiro da caruma do pinheiro aquecida pelo sol de Verão. Ainda hoje quando sinto esse cheiro a recordação que tenho é de seguir atrás de ti mais o primo Manelinho pelo meio do pinhal.

O Manel... já lá vão uma dezena de anos que ele morreu. Será que voces andam a caçar pardalitos juntos agora?

Era tão feliz nessa altura. Não tinha preocupações, stress, a vida era uma alegria completa. Tenho tantas saudades desses tempos e ontem quando soube que já não estavas cá foi como uma luz (mais uma luz) que se apagou dessas memórias ficando agora mais sombrias e tristes.

Sei que não devemos viver no e do passado, mas o que somos hoje é em grande medida fruto desse passado, assim todos os acontecimentos que interajem com ele afectam-nos o presente inexorávelmente.

Adeus tio, até um dia...
Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.

terça-feira, 10 de julho de 2012

BLACK





Foto: <3


Adeus Black!

Conheci-te à porta da praça da Charneca, estavas com os teus irmãos para adopção, vieste ter comigo, lambeste-me a mão e olhaste-me com esses mesmos olhos. Não resisti e tive de te levar comigo.

Detestavas cães pretos, ladravas a ti próprio quando te vias ao espelho, eras um fingido, uma vez fingias estar coxo para logo a seguir saires a correr atrás de um gato. Quando fazias asneiras, ao passares junto a mim ganias mesmo sem te tocar. Detestavas molhar-te, mas sempre que vias gaivotas pousadas na água lá ias atrás delas.

Conquistaste todos os corações os que te conheceram, eras um malandro, daqueles que toda a gente gosta.

Durante 11 anos fostes um amigo, um companheiro, passamos juntos por muitas alegrias e tristezas, tiras-te-me do sério e arrancas-te-me gargalhadas.

Ontem foste-te embora, estou triste, mas sei que foi melhor assim, deves estar com o teu amigo Tom, com quem partilhavas a casota, provavelmente estarão por aí os Ringos, o Perry, o outro Black, a Cockie, o Joli e a Lassie. Todos eles foram meus amigos em diferentes periodos da minha vida, uns estiveram mais tempo comigo, outros menos e todos deixaram uma marca, uma recordação.

Adeus meu cãozinho, até sempre...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Tempestade 2


As nuvens deslocam-se para lá do horizonte perseguidas pelo azul do céu. A poente, começam a surgir as primeiras pinceladas de laranja, as gaivotas pairam aproveitando as correntes sem aparente dificuldade seguindo o pequeno barco, oiço o som das vagas a serem cortadas pela proa.
A brisa vai trazendo o cheiro da maresia, acariciando o meu rosto e inundando-me os pulmões. Agora sinto-me em paz. O turbilhão da tempestade já passou, doem-me os músculos. Com renitência vou trocar a vela de estai1) pela genoa2) e tirar os rizes3) da vela grande4). O barco ganha velocidade, retomo o leme, mareio as velas5), traço uma rota mais favorável. A velocidade vai aumentando, o casco começa a planar6) e atinjo os 9 nós7), 10, 12. Tudo está em ordem, o pequeno veleiro resistiu incólume à tempestade.
Sinto-me em paz, feliz, um largo sorriso ilumina-me o rosto.
-Anda, podes subir, o temporal passou, podemos de novo estar aqui abraçados.
Ela subiu e dirige-se até mim com aquele movimento sensual e felino que me lembra a música dos U2 "She moves in mysterious ways". Abraçamo-nos e beijamo-nos apaixonadamente.
Estivemos afastados durante aquela tempestade que saiu do nada, de repente. Tinha-a pressentido, havia indícios dela aqui e ali, mas eterno otimista, segui o meu caminho. Era simplesmente impossível estar os 2 juntos no convés8) no meio daquelas vagas. Agora podíamos apreciar tranquilamente o pôr-do-sol ali, abraçados.
Lá ao longe começa a brilhar o farol, aos poucos vão se tornando visíveis as luzes das povoações, como uma poeira luminosa. Lentamente a poeira vai-se transformando em pontos bem definidos até ficarem individualizados.
Os pequenos faróis verde e vermelho que balizam a entrada do porto já são visíveis.
Aponto a meio dos dois, vermelho a bombordo9), verde a estibordo10) e preparo-me para recolher as velas.
Ligo o motor, o velho Volvo Penta tosse uma baforada de fumo e começa a cantar. Salto para a proa11) e peço-lhe para soltar a escota12) da genoa, solto a sua adriça13), rapidamente a grande vela começa a descer, oriento a queda para que não caia na água, depois é só prendê-la com os elásticos e regressar ao poço14) e repetir a manobra para a vela grande. Enquanto amarro a vela ela engata a marcha à vante15). Dirigimo-nos para o pontão onde encosto e amarro o barco. Abraço-a longamente olhando-a nos olhos, beijamo-nos embalados pelas pequenas vagas do porto.
-Vamos para casa, acendemos a lareira, jantamos e bebemos um bom vinho, depois… a noite é longa e temos muito para dar um ao outro – murmurei-lhe ao ouvido.
Entramos no carro, no rádio toca “Goodbye Moon” dos Shivaree…

1) Vela de estai – pequena vela de proa, usada quando o vento é mais forte.
2) Genoa – vela de estai de maiores dimensões.
3) Rizes – pequenos cabos usados para reduzir a dimensão da vela grande.
4) Vela grande – vela situada atrás do mastro de forma triangular e mantida entre o mastro e a retranca.
5) Marear – caçar ou folgar uma vela ajustando-a à direção do vento.
6) Planar – quando o barco deslizar na crista da onda.
7) Nós – unidade de medida de velocidade. Corresponde a uma Milha Náutica (1852 metros) por hora (MN/H) ou seja 1,852 Km/h.
8) Convés – é a parte da cobertura superior de uma embarcação.
9) Bombordo – lado esquerdo da embarcação, quando virados para a proa.
10) Estibordo – lado direito da embarcação, quando virados para a proa.
11) Proa – a parte da frente de uma embarcação.
12) Escota – cabo fixo à retranca ou ao punho da escota através da qual se controla a abertura da vela em relação ao vento.
13) Adriça – cabo para sutentar a vela e também usado para a içar.
14) Poço – local onde se encontra a tripulação e de onde se comanda a embarcação.
15) Vante – proa.


Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.