terça-feira, 3 de maio de 2016

China

De novo sentado no canto da aparelhagem com os auscultadores, de novo aquele programa fantástico... Começo por ouvir um trovejar, depois relâmpagos saltam de um ouvido para o outro, começam a soar uns acordes pesados com forte influência oriental e por fim om gongo. Bruscamente a música abranda e acalma... depois surge uma melodia, uma das mais belas que jamais tinha ouvido, o tom apoteótico vai crescendo até ao fim da música.

Começa assim Chung Kuo, a primeira música do album China de Vangelis, outra das apresentações daquele maravilhoso programa que falei no post anterior. Sem interrupção segue-se The Long March um solo de piano espectacular, The Dragon traz-nos uma sonoridade mais oriental, quase dá para imaginarmos a dança do dragão nas ruas de Xangai ou Pequim, os ritmos das músicas vão se encadeando ora mais rápidos ora mais lentos, ora mais Yang ora mais Yin, The Plum Blossom combina na perfeição um violino com cores sonoras vindas da China. The Tao of Love introduz-nos uma Pipa (guitarra típica chinesa), sempre na companhia dos sintetizadores, The little Fete inicia com uma flauta, e conta-nos uma história chinesa numa voz com forte pronúncia.

Yin and Yang aqui a sonoridade é definitiva e inequivocamente oriental, só após alguns minutos os sintetizadores repartem o protagonismo. Ao ouvir a envolvência sonora de Himalaya transmite-nos a sensação de neve, grandiosidade e enigma, juro que consigo-me imaginar lá nos Himalaias sempre que ouço esta música. Summit conduz-nos ao pico, dali conseguimos contemplar o mundo, ali o tempo pára, lá em baixo as nuvens deslizam placidamente.

Foi o meu primeiro contacto com a cultura oriental, embora pela mão de um grego, um contacto que acabou por ser decisivo no resto da minha vida influenciando a minha maneira de ser e ver o mundo, a minha religião, a minha filosofia. Ao longo dos anos fui-me embrenhando cada vez mais a Oriente estudei medicina tradicional chinesa, pratiquei Yoga e Tai Chi, segui a filosofia do Tao Te Ching e do I Ching, para além de seguir os ensinamentos Budistas.

Acho que tal como no disco China, também acabei por mesclar o Ocidente e o Oriente, absorvendo e misturando ideias e conceitos. Daí essa obra ter tido uma importância capital no desenvolvimento da pessoa que sou hoje.

Há momentos que mudam por completo a vida de uma pessoa, não imediatamente, mas tal como uma semente que cai na terra e fica ali dormente, desenvolvendo-se lentamente até desabrochar vindo a tornar-se numa árvore majestosa.

E ainda não me consegui lembrar do nome do program de rádio...

Fiquem bem no lado escuro da lua.



segunda-feira, 21 de março de 2016

O Sonho da Tangerina


Era uma noite de Março ou Abril de 1979, como era habitual enquanto a restante família ficava a ver o programa da noite do 1º Canal da RTP (o único canal que se conseguia ver em Lagos nessa altura), eu estava sentado num canto da sala, junto à aparelhagem AIWA, tinha recebido como prenda de aniversário uns auscultadores e as minhas soirés eram passadas a ouvir a rádio - A rádio comercial FM estéreo.

À noite passava um programa (não me recordo o nome) onde tocavam discos na integra, quase sempre de Rock Progressivo, que não perdia por nada. Naquela noite o locutor anunciou o álbum Force Majeure dos Tangerine Dream.

Os acordes iniciais fantasmagóricos captaram-me imediatamente a atenção, bips cortavam um fundo musical denso, pesado, todo à base de sintetizadores, que deambulava de um ouvido para o outro... uma viola baixo ressoa compassadamente, depois um piano faz-se ouvir e a melodia explode numa cascata de sintetizadores, sequencers que vão alternado ritmos, com uma viola eléctrica e depois duas a desenhar acordes surreais.

Fiquei em êxtase, a música atinge novo andamento agora as violas, fazem a base para um sintetizador lançar-nos como que numa corrida, faz-se ouvir uma bateria, a música acelera até um anticlimax cortado pelo som de um comboio - pouca terra, pouca terra. Entramos numa espécie de ciclone sonoro, o vento sopra acompanhando a viola eléctrica.

Um gongo marca novo andamento, com um sintetizador que lembra as gotas de água de uma chuva primaveril, preparando a entrada para a parte mais mística e melodiosa da música, apenas com sintetizadores somos embalados até um novo andamento, mais mecânico, mais opressivo, mas igualmente belo, que nos catapulta para um final pesado.

Estava esmagado pela primeira música, depois uma viola acústica sobrepõe-se a um sintetizador marcando os primeiros acordes de Cloudburst Flight transitando para um sintetizador que nos eleva para além das nuvens, começando uma viagem vertiginosa por um universo musical como transportados por um foguetão lunar. A viola eléctrica amplifica a sensação de uma tempestade contra a qual chocamos à velocidade do som.

Thru Metamorphic Rocks, rodopiamos num remoinho que nos puxa inexoravelmente para o fundo de um oceano de sons. De repente o sol rompe no meio das nuvens transportado por uma viola, estamos de volta à superfície, exaustos, contemplamos o céu, quando de repente aparecem nuvens escuras! Relâmpagos riscam os céus, os mares agitam-se, as ondas começam a rebentar à nossa volta, ouvem-se trombetas, o oceano de som continua agitado, sentimos a força das pesadas ondas de som que explodem contra nós, fantasmas gemem à nossa volta, a tormenta continua mais pesada, mais pesada ainda, os gemidos aumentam de intensidade.

Estamos exaustos mas não conseguimos desligar, a música está no clímax, a qualquer momento parece que a nau onde enfrentamos a fúria desta tempestade musical vai desintegrar-se, por fim afasta-se... lentamente afasta-se deixando-nos respirar... por fim o silêncio, um longo silêncio de 5 segundos que parecem anos...

As memórias terminam aqui, apenas mais uma, no dia seguinte na loja Disco de Ouro - aguardo com ansiedade que o pai da Marisa me traga o vinil, nem peço para ouvir como sempre fazia. Agarro-o firmemente e corro para casa. Durante dias ouvi-o e voltei a ouvi-lo. Ainda hoje sinto um arrepio e termino a sua audição quase exausto.

Fiquem bem no lado escuro da lua.